Editorial - Dar o peixe ou ensinar a pescar

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Editorial - Dar o peixe ou ensinar a pescar

Todos nós já ouvimos algumas pessoas falar a propósito da pobreza dizer que é preferível dar ao pobre «uma cana e ensiná-lo a pescar» que oferecer «o peixe». Sim, temos de reconhecer que «dar o peixe» pode perpetuar uma situação que fará com que o pobre continue sempre pobre. Ao invés, «ensinar a pescar» cria potencialidades e ajudará o pobre a depender de si e até a alterar a sua situação de carência.

Estamos de acordo, mas quando fazemos esta reflexão uma dúvida se nos levanta. Como poderá o pobre sobreviver até que «aprenda a pescar». Esta fase, nesta linguagem simbólica, poderá levar dias, meses ou anos. E entretanto o pobre, se não tiver «peixe», acaba por morrer.

Vêm estas considerações a propósito do projecto iniciado pelo Forum Abel Varzim, noticiado noutro local deste site, que consiste na distribuição gratuita de refeições a famílias carenciadas do Bairro da Graça. Para alguns esta acção poderá ser classificada como «assistencialismo puro» e, portanto, não contribuirá para alterar as estruturas e os sistemas que «fabricam» a pobreza e os pobres.

Estão enganados os que assim pensam. O Forum Abel Varzim, fiel à herança do seu estimado patrono – o Padre Abel Varzim, nunca deixará de ter presente que há que construir uma sociedade mais justa mais humana e respeitadora da dignidade de todos, eliminando a pobreza. Mas essa luta é longa só poderá ser ganha a médio e longo prazos. E até lá o que fazer?

Alguns que conviveram com o Padre Abel Varzim referem que ele desejava e lutava por uma sociedade diferente, respeitadora dos direitos humanos, sem pobres. Mas esses também referem que Abel Varzim não conseguia ter dinheiro no bolso muito tempo. Não era capaz de dizer não a quem lhe solicitava ajuda para satisfazer as suas necessidades mais elementares, no imediato.

Por ocasião da comemoração do Dia Internacional da Erradicação da Pobreza (17 de outubro), o INE apresenta os resultados definitivos do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento realizado em 2014, sobre rendimentos de 2013. A taxa de intensidade de pobreza em Portugal, que em 2012 era 24,1%, passou para 30,3% em 2013. Por outro lado, cerca de 19,5% das pessoas estavam em risco de pobreza em 2013; destas, uma em cada cinco encontrava-se também em pobreza em pelo menos dois dos três anos anteriores. As percentagens têm vindo a aumentar. Esta realidade estrutural tem que ser alterada rapidamente, o que passará também pela participação dos que vivem a situação de pobreza.

No Forum Abel Varzim temos a consciência que não ficamos dispensados de lutar contra as condições estruturais da pobreza só porque estamos a distribuir algumas refeições a umas tantas famílias que delas necessitam no seu dia-a-dia.

A Direção
outubro/novembro
2015 

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