SÍRIA - Um Testemunho Vivido

Um Testemunho Vivido sobre a Síria

Entrevista com um ativista sírio que escapou do inferno
Escrito por Karim Metref 11 de abril de 2012

Há alguns meses atrás, no jornal El-Ghibli, escrevi acerca do meu amigo sírio Hamed, de quem eu não tinha conseguido notícias. Agora estou mais tranquilo, pois disse-me que está fora de perigo. Conseguiu fugir para outro país árabe.  Quanto a Hamed estamos garantidos, mas para a Síria estamos mais preocupados do que nunca.

Depois das perguntas sobre a sua saúde e da família, comecei a perguntar pelos outros amigos sírios e palestinianos residentes na Síria.  Tudo pessoas empenhadas politicamente e culturalmente.  Opositores desde sempre do regime ignorante e violento dos Assad.  As notícias não são nada boas.  Tanto ele, Hamed, como todos os outros conheceram o cárcere, a tortura a humilhação.  Depois disse-me que Muhannad e sei irmão Salim e morreram sob tortura.  Os outros estão escondidos ou fugiram no exterior.  Quer para a Jordânia, quer para a Turquia, quer para qualquer outro país.

Recordo as imagens de Muhannad e Salim.  Dois filhos de Deir ez-Zor.  Doces como o mel. Recordo-me de sua simpatia, da sua generosa hospitalidade.  Muhannad era um jornalista e uma pessoa de grande cultura.  Lendo apenas árabe, citava de memória autores e filósofos de diferentes culturas.  Ele era realmente um crente, mas sua profunda fé muçulmana não o impediu de ser um livre-pensador e um amante dos prazeres da carne, do copo e do humorismo.  Salim foi ao contrário, um artista, ator e cantor talentoso, era ateu e nunca falhou em suas operetas improvisadas, de falar, após o 4.º ou 5.º copo de arak,[i] de zombar dos islamistas mais rigorosos, e da hipocrisia religiosa crescente nas sociedades muçulmanas.

Como é que conseguiu sair, Hamed? Passou a fronteira legalmente?

Mas qual legalmente? Desde que fui libertado da prisão há cerca de sete meses atrás, fiquei em casa uma semana. Depois fugi.  Dormia todas as noites num lugar diferente.  Entrei na clandestinidade porque sabia que me deteriam novamente. Quando soube da morte de Mohannad e Salim, ficou claro para mim que eu não poderia nem sequer ir buscar as minhas coisas a casa.

Consegui atravessar a fronteira pagando uma pequena fortuna.  É a primeira vez que eu estava satisfeito, pois o regime é muito corrupto.

Como estava a situação quando saiu do país?

"Khara!" [ii] Não entendemos nada.  Começou tudo bem.  Como em todos os países da região. Nas ruas estavam estudantes, trabalhadores jovens, mulheres, jovens, adultos, famílias. Movimentos de esquerda, um pouco da “Irmandade Muçulmana” [iii], Nacionalistas Sírios... de repente, do nada apareceram os salafitas [iv] cheios de armas e de dinheiro e, a situação piorou. Não se entende nada.  Morre-se como moscas de parte a parte.

Outras tendências viram-se presas entre dois fogos. Ameaçados pelo Estado e pelos grupos armados. Em muitas cidades, diz-se que os grupos do chamado Exército Livre se comportaram pior do que o governo, com torturas, mutilações e assassinato de pessoas em público, apodados de colaboracionistas.

Mas de acordo com você, sendo que a oposição armada é de maioria sunita, não há risco de "limpeza étnica"?

Sim, de fato.  O fato de serem todos árabes sunitas, com uma forte tendência radical islâmica, apoiados pelos patrocinadores tradicionais do fundamentalismo, ou seja os países do Golfo Pérsico, que, curiosamente são também os tradicionais amigos do Ocidente. Isto cria um estado de ansiedade nas pessoas laicas pertencentes a outros grupos seculares, religiosos ou culturais. Muitos dizem que, se eles vencerem vão querer impor suas leis, por isso nós também nos estamos armando.  Se o governo cair neste momento e nestas condições, o que sucedeu  no Iraque parece ser um pressagio do que pode acontecer connosco.

Cristãos, Alauítas, Ismaelitas, Xiitas e Curdos não vão aceitar o diktat de um único grupo do mosaico Sírio.  Mesmo entre amigos refugiados palestinos, a situação é tensa.  A Síria foi o último refúgio da esquerda palestiniana.  Uma vitória dos salafitas significaria um confronto frontal para a imposição do controlo nos campos de refugiados, por parte do Hamas e da Jihad Islâmica, o que significaria que a Frente Democrática Palestiniana e a Frente Popular Palestiniana teriam de recorrer às armas para defender o seu último espaço vital.

Vemos aqui a mão de quem não quer uma Síria forte e unificada: ou seja, a Arábia Saudita, a Turquia, Israel... tudo pode acabar numa verdadeira bagunça.

Informalmente, existem contactos entre as forças progressistas pertencentes a diferentes partidos para tentar evitar a queda na divisão. Mas ninguém sabe quando haverá um acordo entre uma oposição forçada a esconder-se, pois, cada um, pode encontrar-se, de repente, perante um fogo em que sofrerá muitos golpes.

E o que é que se pensa, internamente, sobre aquilo que é apresentado ao mundo como a voz da oposição síria?

As pessoas politizadas começam rir, um riso amargo, quando se ouvem os nomes dos pseudo opositores pertencentes ao Conselho Nacional Sírio.

Pequenos empresários como Bassam Jaarar, ou pessoas que nunca estiveram na política e agora se apresentam como feroz oposição.  Está a repetir-se exatamente o cenário iraquiano no qual um bando de oportunistas e espiões, se declara como a oposição do país e se apresenta como uma nova elite dirigente.

O Comité de Coordenação Nacional já um caso mais sério.  É constituído por pessoas que sempre disseram não.  Ainda que com as suas contradições internas, que são as da sociedade síria.  Mas ao menos nós falamos principalmente de pessoas que não estão comprometidos e estão limpas.  Não é por acaso que os meios de comunicação ocidentais adotaram, quase que exclusivamente, como fonte de informação o Conselho Nacional.

Internamente estas duas realidades representam muito pouco.  Não se pode confiar em quase ninguém, nem mesmo naqueles no “Exército Livre” que agora se aclama como heroico.

E, na tua opinião, quais são as suas perspectivas?

"Senariuhat e mostaqbal akhra min halla".  Os cenários possíveis para o futuro são ainda mais "esterco" do que agora.  Ou ganha o governo e vamos estar mais 20 anos de estado de emergência,  ou que impõe uma solução negociada, no estado actual das coisas, significa que o regime será obrigado a dividir o poder com os grupos armados e os salafistas.  Ou o pior é que o regime cair e deixar o país no meio de uma violência incontrolável.  E realmente não sei quanto poderá durar uma guerra civil na Síria e quais as repercussões que isso teria nos países vizinhos: no Líbano e no Iraque de modo particular.

Hamed pediu desculpas porque tinha de desligar.  O Cyber-café de onde ele estava a falar ia fechar.  Saudamo-nos apressadamente.  Pensando nos sofrimentos a que está submetido, bem como o seu povo. Este meu amigo já começou a enfrentar um novo problema na vida, a sobrevivência de uma imigrante num país estrangeiro.

Adaptado de Glob011, de Turim, em tradução livre (http://www.glob011.com/)

[i] Bebida Alcoólica de origem árabe, destilada da tâmara ou uva, aromatizada com anis dentre outras especiarias.
[ii] Palavrão árabe que significa “merda”
[iii] Organização Islâmica fundamentalista
[iv] O “Salafismo” é um movimento Sunita que reivindica o regresso às origens do Islão.