PORQUE FUGISTE, SENHOR?

De entre a documentação que faz parte do espólio do nosso Patrono, aqui reproduzimos um texto, que é uma reflexão e um testemunho. O texto é explícito por si próprio. 
                                                                      P O R Q U E  F U G I S T E,  S E N H O R?

Era de festa rija aquele dia, em São Tiago de Vila Seca [Barcelos]: Festa do Padroeiro e Missa Nova de um jovem frade de S. Francisco.

Pregava, ao Evangelho, um outro frade, antigo companheiro nosso de muitas lidas. Porque nos não víamos há muito tempo, foi afectuoso o nosso encontro. E deu-se o inevitável: falarmos, com saudade, do muito que se fizera e do muito mais que se quisera e se poderia ter feito e que não foi possível fazer. E, logo, a troca de impressões se estendeu mais além, a esse além que só Deus pode julgar, a esse além que é o mundo contemporâneo, a sociedade portuguesa, a nossa sociedade cristã repleta de demissões, a ameaça da futura desagregação que, à nossa consciência parecia poder ter-se evitado ou, ao menos, atenuado. 
Acabamos por nos calar! Mas quem pudesse ler neste silêncio descobriria, facilmente, a tristeza imensa que nos enchia a alma, como se cada um de nós visse já o mundo inteiro a arder. E também por nossa culpa… 
Despedimo-nos! Ao retomar o Breviário, que o encontro interrompera, o primeiro versículo do 3.º nocturno daquele dia começava assim, como a secundar a dolorosa angústia das nossas almas mil vezes feridas: Ut quid, Domine, recessisti longe? Porque fugiste, Senhor, para tão longe
Não pude continuar, mas apenas meditar 
Afinal o nosso diálogo, que o silêncio interrompeu, não era outra coisa senão a expressão moderna duma única e mesmíssima salmodia. Versículos escaldantes, regados em dor num templo deserto, fazíamos eco, pelas abóbadas do Tempo, à mesma amargura do Salmista. E, se não soubera nunca interpreta-la – a essa tremenda amargura – mas apenas senti-la, era agora o velho salmo que ma vinha explicar. 
Sim! Esse doloroso silêncio que pôs ponto à conversa, era apenas a expressão claríssima da ausência de Deus … de um mundo que O renegara. Diremos até: ausência de um mundo “cristão”, de onde Cristo se afastou. Para bem longe!. 
Para tão longe, que até parece a muitos que não existe. Que passou como passam todas as coisas.

Porquê, Senhor? Porque fugiste? 
Quem poderá medir a imensidade da pena de semelhante ausência? 
E contudo ela existe! Penetrante como a espada! Negra como a noite! 
E, se não foram as trevas do Calvário, diríamos até que essa ausência era impossível, porque Deus está em toda a parte. Mas, se está em toda a parte e ninguém pode subtrair-se à sua infinita presença, há, contudo, uma maneira única de não estar, que é a Sua ausência, igualmente infinita.
Como ninguém, a sentiu Cristo, na agonia do Calvário: Deus meus, Deus meus, quare deleriquisti? Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste? 
O abandono de Deus!!! 
Por isso se diz – e deve ser este um dos misteriosos sentidos do Credo – que Cristo desceu aos infernos. Com efeito, a maior pena do inferno – senti-la-ia Cristo no Calvário? – é, segundo os teólogos, a ausência de Deus!  …. … … … …

E quem é o meu próximo?
            Não importa onde foi, nem quando foi. Importa saber-se que foi, e ainda há pouco tempo. 
            Batem à porta. 
            - Vinha pedir-lhe, Sr. Prior, que viesse benzer uma rapariga que está a morrer numas escadas.
            - A morrer numas escadas?!! E hei-de ir eu sacramentar uma moribunda numas escadas? Não vou! Não há ninguém que a recolha para morrer? Ao menos para ser sacramentada? Vai procurar e depois volta. 
            Uma hora depois, já estava “recolhida”. 
            E fui. 
            Encontrei-me numa copa, face a face com a rapariga, sentada numa cadeira. 
            Principiava uma tarde fria de Janeiro. Rosto pálido, pele e osso, e, a cobrir aquelas peles e aqueles ossos, um humedecido e gasto vestido todo feito de chita. 
            Já mal falava. Respiração difícil. Um estado pré-agónico. 
            Ouvi-a de confissão (ouvi-a? Adivinhei a confissão) e, para lhe administrar a Santa-Unção, disse, à única mulher que me apareceu, que poderiam todos assistir. 
            No fim do acto sacramental, vi-me rodeado de raparigas novas. Na expressão daqueles rostos não foi difícil dar conta de me encontrar numa “casa” de prostituição. 
            Então adivinhei tudo… ou quase tudo! Mas quis saber. 
            Uma vez cá fora, interroguei. 
            Aquela rapariga – tinha ela 21 anos – era “uma” daquela casa. Tuberculizara! Mesmo tuberculosa continuava. 
            Mas quando, um dia, já ninguém a procurava por não ser mais do que um esqueleto em pé, a vomitar escarros e sangue – e portanto por já não ser negócio – foi posta violentamente na rua. 
            Mas não tinha ninguém! Ninguém sequer sabia o seu nome. Chamavam-lhe Amélia, “nome de guerra”. Também elas, como as freiras, mudam de nome… porque os extremos tocam-se.  … … …

NOTA:

Este texto, encontra-se publicado no n.º 27 da Revista «O TEMPO E O MODO» de maio de 1965, antecedido de uma nota de António Alçada Baptista, na qual este diz «…Ao folhear alguns papéis antigos, surge-me este «testemunho» que ele me enviou [Pe. Abel Varzim], princípio dum livro que gostaria de publicar. …»

O Padre Abel escreveu de facto o livro, a que deu o título de “Procissão dos Passos”, e que o Forum Abel Varzim e a Editora Multinova deram à estampa no ano de 2002 e do qual foram feitas até agora duas edições, já esgotadas. Está no prelo uma nova edição. 

FORUM ABEL VARZIM 
fevereiro de 2014

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