O DESAFIO DE SER CRISTÃO NO TRABALHO

O DESAFIO DE SER CRISTÃO NO TRABALHO

Tive o grato prazer de acompanhar a elaboração de um texto (Ser Cristão no Trabalho- Um Desafio!- (acessível em www.ecclesia.pt/cnjp) que resulta do diálogo e comunhão entre representantes de várias organizações católicas, entre elas associações de trabalhadores e de empresários.

 As perspetivas de que partiam estas associações de trabalhadores e empresários não eram uniformes, e não o são ainda hoje. Mas uns e outros identificam-se com os princípios da doutrina social da Igreja. Podemos, pois, dizer que entre elas os pontos de união são mais relevantes e sólidos do que os de divergência. Mas a verdade é que nem sempre esta realidade vem em evidência, neste como noutros âmbitos do diálogo intraeclesial.

Também é verdade que desses princípios da doutrina social da Igreja não decorre um catálogo completo de soluções nos campos da política, da economia e da intervenção social. É legítimo e salutar o pluralismo entre quem adere a esses princípios. Mas estes não são tão genéricos a ponto de justificar “tudo e o seu contrário”. Como afirma o Papa Francisco na Evangelii Gaudium (182), «os ensinamentos da Igreja acerca de situações contingentes estão sujeitos a maiores ou novos desenvolvimentos e podem ser objeto de discussão, mas não podemos evitar ser concretos – sem pretender entrar em detalhes – para que os grandes princípios sociais não fiquem meras generalidades que não interpelam ninguém. É preciso tirar as suas consequências práticas, para que possam incidir com eficácia também nas complexas situações hodiernas».

O documento Ser Cristão no Trabalho - Um Desafio resultou de um esforço de diálogo autêntico, de abertura a outras perspetivas para alcançar uma visão mais ampla. Por isso, não se limita a um conjunto de afirmações vagas e genéricas, em torno das quais é fácil o consenso. Alude a questões como o desemprego, a precariedade dos vínculos laborais, o impacte do trabalho na família e na saúde, a falta de investimento e de produtividade, a fragilidade do Estado, a falta de valores éticos. Reafirma o valor da pessoa humana como centro da vida económica, o trabalho como continuação da Criação, o trabalho para todos como elemento essencial da justiça social, a empresa como comunidade de pessoas e famílias, as potencialidades e limites do mercado. Propõe a conversão pessoal ao amor de Deus e a vivência do trabalho em nome de Cristo, a procura da unidade de vida e uma ecologia no trabalho, o diálogo e cooperação nas empresas, a opção pelos mais pobres (em especial, os que não têm emprego ou têm um emprego precário), a transformação das estruturas políticas e económico-sociais.  

Já depois da difusão desse texto (para que foi simbolicamente escolhido o dia 1 de maio), o Papa Francisco com as palavras que, em Génova, a 27 de maio, dirigiu a empresários e trabalhadores (acessíveis em www.vatican.va), ajudou a aprofundar e esenvolver o desafio a que o texto que responder: ser cristão no trabalho.

Sobre os empresários disse: «não existe uma boa economia sem bons empresários, sem a vossa capacidade de criar, criar trabalho, criar produtos»; o bom empresário «trabalha ao lado dos trabalhadores», «partilha as suas dificuldades e alegrias»; não se confunde com o especulador, que vê «a empresa e os trabalhadores apenas como meios para obter lucros».

E sobre o trabalho, disse: «ao trabalhar tornamo-nos mais pessoas, a nossa humanidade floresce, os jovens só se tornam adultos trabalhando»; «na Terra há poucas alegrias maiores do que as que experimentamos ao trabalhar, tal como há poucas dores maiores do que quando o trabalho explora, esmaga, humilha, mata»; «o trabalho pode fazer muito mal porque pode fazer muito bem».
                                                                        Pedro Vaz Patto