ABEL VARZIM - Percurso de Vida

Abel Varzim / Percurso de Vida
NOTAS BIOGRÁFICAS

Abel Varzim da Cunha e Silva, nasceu em Cristelo (Barcelos), diocese de Braga no dia 29 de Abril de 1902, no seio de uma família da classe média rural, sendo filho de Adelino da Costa e Silva e de Adelaide Varzim da Cunha e Silva.

Ingressou na escola onde sua mãe era professora, tendo concluído a “instrução primária”, com o exame da quarta classe, em Julho de 1912, aos dez anos.

Querendo ser sacerdote, teve de ingressar no liceu da Póvoa do Varzim, por não haver seminário menor em Braga, porque este tinha sido ocupado militarmente em 1911.

Em 1916, quando terminou o liceu, esse problema estava resolvido – e Abel Varzim concluiu então os estudos preparatórios.

Em 1921, entrou para o Seminário Conciliar daquela cidade, onde se formou em Teologia, tendo celebrado “Missa Nova”, a 3 de Julho de 1925, na Póvoa do Varzim.

Correspondendo a um pedido do Bispo de Beja, D. José do Patrocínio Dias, o prelado Bracarense, D. Manuel Vieira de Matos, cede o novo sacerdote à Diocese de Beja, tendo sido colocado no Seminário Menor de Serpa, como professor e prefeito, desde a sua inauguração em 21 de Novembro de 1925. Ali leccionou, durante cinco anos, e aplicou o seu dinamismo, tendo apoiado, inclusivamente, a iniciativa da Equipa Educativa do Seminário, na fundação do agrupamento de escuteiros n.º 38 (Beato Nuno Álvares Pereira) do C.N.S. [Corpo Nacional de Scouts], do qual foi nomeado Chefe. [1]

Após esta estadia em Serpa, seguiu para a Universidade de Lovaina, na Bélgica, o que lhe rasgou novas perspectivas e abriu mais largos horizontes.

Quatro anos depois, em 23 de Abril de 1934, doutorava-se em Ciências Políticas e Sociais. Para sua tese Abel Varzim, escolheu o tema Boerenbond [Liga de Agricultores], a que deu o título de “Le Boerenbond Belge”, e na qual procede ao estudo e avaliação daquela estrutura agrária católica belga, virada para o conjunto dos problemas do mundo rural, numa visão simultaneamente corporativa e cooperativa. Esta tese foi editada pela Casa «DESCLÉE DE BROUWER ET Cie», de Paris, em 1934, e impressa na sua casa de Bruges (Bélgica).

Aproveitou a estadia em Lovaina para complementar a sua formação, participando em inúmeros Congressos e Semanas Sociais, aprofundar o estudo das Encíclicas Sociais de Leão XIII e Pio XI, tendo também privado com entidades tão diversas, como Jacques Maritain e Joseph Cardijn, fundador da JOC (Jeunesse Ouvrière Chrétienne/Juventude Operária Católica) e com Hergé, autor do “TinTin”, etc. Desta sua estadia colheu o seu interesse pelos temas sociais, questão que marcou indelevelmente toda a sua acção futura.

De regresso a Portugal, redigiu com o Padre Manuel Rocha os Estatutos da Acção Católica Portuguesa (ACP), pugnando para que esta fosse constituída por organismos especializados, de jovens e adultos, e de agricultores, operários, universitários, etc., este documento, mau grado a oposição do Estado Português, foi aprovado pela Santa Sé.

Em 1934, é convidado pelo seu companheiro de escola primária e de seminário, Pe. Lopes da Cruz, que era já em Lisboa responsável pela redacção do diário NOVIDADES, e da revista Renascença, e orientador da campanha para a criação da Rádio Renascença para, com ele, se dedicar a estas tarefas, sendo assim, um dos fundadores da rádio renascença que iniciou as suas emissões regulares em Janeiro de 1937.

Esteve também na fundação da Liga Operária Católica, [2]Organismo Especializado da ACP, criado oficialmente em 30 de Junho de 1935, e que iniciou a sua actividade em 1936, da qual foi Assistente Geral até 1948.

Foi o grande impulsionador do jornal “O Trabalhador”, fundado em 1 de Maio de 1934, do qual o próprio Abel Varzim nos dá esta definição objectiva: «Órgão de defesa dos operários e porta-voz da doutrina social da Igreja» ao qual se dedicou depois de alma e coração; o jornal, (dos Organismos Operários da Acção Católica), viria a ser suspenso [leia-se proibido] por comunicação verbal dos «Serviços de Censura» ao Chefe da Redacção, Manuel Alpiarça, em 9 de Julho de 1948, quando este, ali se deslocou, em busca do “original visado” por aquela entidade, depois de ter aguardado, longamente, pelo mesmo. Esta suspensão ocorreu, goradas as tentativas que a “autoridades” [leia-se União Nacional] empreenderam para o subornar e/ou “domesticar”.

Durante a sua passagem pela Acção Católica, desenvolveu uma intensa actividade, com destaque para a defesa e promoção da justiça social.

Quando do seu regresso a Portugal, profundamente interessado pelos problemas sociais, e consciente do atraso estrutural em que o país se encontrava, acolheu como boa a solução imposta por Salazar, de um Estado Unitário Corporativo, aceitando por isso o “Estatuto do Trabalho Nacional”. Cedo, contudo, verificou que estava equivocado, e que o regime do Estado Novo, não respondia aos problemas que afligiam os trabalhadores, e o comum dos portugueses.

A convite de Salazar, foi deputado à Assembleia Nacional, na legislatura de 1938/1942, ficando célebre um “Aviso-Prévio” que ali apresentou em 17 de Fevereiro de 1939,[3] sobre os Sindicatos Nacionais, em que criticava certos aspectos da organização sindical Corporativa, onde mencionava a acção do Instituto Nacional do Trabalho e Previdência, e nomeadamente a sua ineficácia em muitos aspectos. Esta passagem pela Assembleia Nacional ficou também marcada pela intervenção que proferiu, no dia 6 de Fevereiro de 1941, “manifestando a sua discordância” com os termos do Decreto-Lei n.º 31.107, que regulamentava as condições económicas do casamento dos militares em serviço. Os ataques e ameaças que, então enfrentou, afastaram-no definitivamente das ideias do Estado Novo.

Começou então a conhecer os caminhos amargos da perseguição política (e não só), ao mesmo tempo que realizava com forte empenho acções de formação para trabalhadores e estudantes universitários, naquilo a que hoje chamaríamos “formação para a cidadania”.

No começo de 1939, foi nomeado director do Secretariado Económico-Social, órgão da Acção Católica, que tinha por fim exercer actividades sociais.[4]  Deixou aquelas funções em 1948.

Foi também:

• Professor do Instituto de Serviço Social (1938-48);
• Assistente do Centro de Estudos de Acção Social para Universitários (1941-45);
• Impulsionador da primeira série das Semanas Sociais Portuguesas;
• Mentor da Cooperativa Popular de Portugal, fundada em 1935, e extinta em 1972.

Foi ainda o responsável pela realização de importantes iniciativas, como a Peregrinação Operária a Fátima[5] , em 1943, e o Congresso dos Homens Católicos, em 1950.

Como jornalista, foi Chefe da Redacção da revista “Lumen” [para o clero] e colaborou em vários órgãos de comunicação social, entre os quais o jornal “Novidades”, a Rádio Renascença (Revista e Rádio), o “Jornal de Notícias”, “Comércio do Porto”, “Correio do Minho”, “Jornal de Barcelos”, "Boletim da Acção Católica Portuguesa", bem como dos periódicos dos Movimentos Operários da Acção Católica.

Afastado das suas responsabilidades na Acção Católica – e já sob vigilância da polícia política – foi nomeado, em 1948, Pároco da Freguesia de Nossa Senhora da Encarnação, em Lisboa, a qual reorganizou, tendo criado a “Casa de Trabalho”, o Posto Médico, Sopa dos Pobres… Nesta paróquia realizou uma obra, também notável, na luta pelos mais desfavorecidos e pela recuperação e reintegração social das prostitutas, luta que se estendeu a outras zonas da cidade e, ainda, ao Porto, sendo o Fundador e Assistente de Centros de recuperação:

• na Quinta do Bosque (Amadora) [Instituto de Sant’Ana],[6]  e
• no Porto [Casa de Nossa Senhora - Rainha da Paz, instalada na Rua do Bonfim, n.º 390 – Porto],
• na Liga Nacional Contra a Prostituição (1954-64).

Em 1957, voltou para a sua terra natal, onde continuou a ser alvo de vigilância da polícia política. Na sua terra, mau grado as perseguições sofridas, continuou a sua acção em prol do “desenvolvimento” e da “solidariedade”, tendo promovido a criação da Sociedade Avícola do Minho (SAMI), sociedade cooperativa, que se propunha o desenvolvimento económico da região.

Viria a falecer, no Porto, a 20 de Agosto de 1964.

 

 

[1] “Flor de Lis” – Órgão oficial do Corpo Nacional de Scouts – n.º 4 de 31 de Março de 1928
[2] “A Igreja e o Mundo Operário” – Ed. Gráfica de Coimbra, Lda. – pag. 28
[3] Diário das Sessões da Assembleia Nacional, n.º 39 - páginas 357 a 366 – 1939.02.17
[4] Relatório do Serviço Económico e Social – Anos 1945/46 –
[5] Relatório da Peregrinação e Carta do Episcopado –
[6] Relatório do Instituto de Sant’Ana